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    Duff

    Page 26
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      na realidade, vivíam os de um j eito m uito parecido.

      Cham ar Vikki de vadia ou vagabunda era o m esm o que cham ar alguém de

      Duff. Era um a coisa ofensiva de dizer e m agoava profundam ente. Era um desses

      rótulos que se alim entavam dos m edos secretos que todas as m eninas têm de

      tem pos em tem pos. Vadia, puta, puritana, cabeça de vento. Era tudo a m esm a

      coisa. Toda garota j á foi definida por esses adj etivos sexistas em algum a etapa da

      vida.

      Então, talvez, todas as garotas se sintam com o um a Duff?

      — Meu Deus, estou m uito, m uito atrasada — disse Vikki no instante em que o

      sinal tocou. — Preciso ir.

      Acom panhei Vikki com o olhar enquanto ela apanhava a bolsa e recolhia

      seus livros, im aginando o que devia estar se passando em sua cabeça. Será que

      toda essa situação havia feito com que ela se desse conta das consequências de

      suas escolhas?

      Nossas escolhas.

      — Nos vem os por aí, Bianca — disse ela enquanto se dirigia para a porta.

      — Tchau! — falei. Então, sem pensar, disse: — E, Vikki… Sinto m uito. É

      um a droga o que as pessoas dizem sobre você. Lem bre-se de que o que elas

      dizem não im porta. — Novam ente, pensei em Wesley e no que ele m e falara no

      quarto dele. — As pessoas que se referem a você com nom es idiotas só estão

      tentando se sentir m elhor. Elas tam bém estão confusas. Você não está sozinha.

      Vikki m e encarou, parecendo surpresa:

      — Obrigada — disse ela. Ela abriu a boca com o se estivesse prestes a dizer

      algo m ais, porém fechou novam ente. Sem dizer m ais nada, deixou o banheiro.

      Até onde eu sabia, Vikki provavelm ente sairia com um novo cara esta noite.

      Talvez não tivesse aprendido nada com a experiência. Ou talvez ela fosse m udar

      seu com portam ento de um a vez por todas — ou ao m enos, quem sabe, ser um

      pouco m ais cautelosa. É provável que eu nunca descubra. A escolha era dela. A

      vida era dela. E não era m eu papel j ulgá-la.

      Nunca foi m eu papel j ulgar.

      Estava descendo pelo corredor, cinco m inutos atrasada para m inha aula de

      inglês, quando decidi que j am ais cham aria novam ente Vikki — ou qualquer outra

      pessoa — de vadia.

      Porque ela é igual a m im .

      Igual a todo m undo.

      Isso era algo que todas tínham os em com um . Vadias ou putas, pudicas ou

      Duffs.

      Eu era um a Duff. E isso era um a coisa boa. Porque qualquer pessoa que não

      se sente com o um a Duff de vez em quando não deve ter am igos. Todas as

      garotas se sentem pouco atraentes às vezes. Por que dem orou tanto tem po para

      que eu m e desse conta disso? Por que passei tanto tem po estressada por causa de

      um a palavrinha? Eu deveria m e orgulhar de ser um a Duff. E m e orgulhar de ter

      am igas fantásticas, porque, na cabeça delas, elas eram minhas Duffs.

      — Bianca! — A sra. Perkins m e cum prim entou quando entrei na sala de

      aula e sentei em m inha carteira. — Antes tarde do que nunca.

      — Acho que sim — respondi. — Desculpa por ter dem orado tanto.

      Quando cheguei em casa naquela tarde, estava cansada dem ais até m esm o para

      subir a escada. Sim plesm ente desabei no sofá, e o sono m e venceu rapidinho.

      Tinha esquecido com o era bom tirar um a soneca no m eio do dia. Quer dizer, os

      europeus acertaram em cheio com seu conceito de sesta. Nós, am ericanos,

      devíam os considerar dar um a dorm idinha no m eio de um dia cheio de

      com prom issos porque é m uito revigorante, principalm ente depois de um tão

      cheio de em oções com o o que eu tinha acabado de experim entar.

      Eram quase sete da noite quando acordei, o que lim itava bastante o tem po

      que eu tinha para m e arrum ar para o encontro. Meu cabelo, que parecia um

      m onte de feno depois do cochilo, ia levar quase um a hora de dedicação para

      ficar aceitável. Que ótim o.

      Desde que tinha com eçado a sair com Toby, eu vinha prestando m ais

      atenção na m inha aparência. Não que ele se im portasse com esse tipo de coisa.

      Toby era o tipo de cara que provavelm ente diria que eu estava bonita vestida

      com o um palhaço — peruca nas cores do arco-íris e tal. Mas sentia essa

      constante necessidade de im pressioná-lo. Alisei m eu cabelo e o prendi em um

      rabo de cavalo, coloquei um par de brincos de pressão prateados (sou covarde

      dem ais para furar m inhas orelhas) e vesti a blusa que Casey m e dera de presente

      no m eu aniversário de dezessete anos. Era um a blusa de seda branca com

      estam pa em tons prateados, j usta, o que fazia m eus seios parecer m aiores.

      Eram quase oito da noite quando desci a escada usando m inhas sandálias de

      salto alto, arriscando m inha segurança para ficar um pouquinho m ais alta. Tom ei

      cuidado para não olhar para a cozinha enquanto passava pela porta, porque m eu

      pai, obviam ente pensando que as rosas eram presente de Toby, tinha colocado o

      buquê em um vaso antigo no centro da m esa de j antar na noite passada. Fora

      um a gentileza, m as olhar para as rosas verm elhas só trazia de volta m inhas

      dúvidas irritantes. Então segui direto para a sala de estar e m e j oguei no sofá para

      esperar Toby, prom etendo a m im m esm a que encontraria a solução para as

      m inhas confusões rom ânticas naquele fim de sem ana.

      Por falta de algo m elhor para fazer, peguei o guia da program ação da TV

      que estava sobre a m esa de centro e com ecei a ver a program ação dos próxim os

      dias. Um post-it preso entre duas páginas cham ou m inha atenção, e eu abri o guia

      naquelas páginas. Papai tinha sublinhado o aviso da m aratona de Caras & Caretas

      no dom ingo seguinte, usando aquele pequeno pedaço de papel com o m arcador

      de página. Sorri e puxei um a caneta que estava na m inha bolsa para rabiscar

      “Deixe a pipoca com igo!” no post-it. Papai veria isso assim que chegasse em

      casa da sua reunião.

      No instante em que pus a revista sobre a m esa, a cam painha tocou. Eu m e

      levantei o m ais rápido que pude, tem endo cair, e tropecei pelo cam inho em

      direção à porta, esperando ser saudada com um grande sorriso de Toby, que eu

      absolutam ente não m erecia. O sorriso branco e brilhante que se abriu bem na

      m inha frente, porém , pertencia a alguém totalm ente diferente.

      — Mãe? — Eu m eio que engasguei dizendo essa palavra, soando com o um a

      personagem de novela m exicana que acaba de descobrir que sua gêm ea

      m alvada ainda está viva. Envergonhada, lim pei a garganta e perguntei: — O que

      você está fazendo aqui? Pensei que estivesse no Tennessee.

      — Eu estava, m as decidi fazer um a visita, é claro — respondeu m inha m ãe,

      apalpando seu penteado de estrela de cinem a. Seu cabelo loiro platinado estava

      preso em um coque, e ela usava um vestido verm elho e preto até os j oelhos. Um

      visual que era m arca registrada da m inha m ãe.

      — Mas são sete horas de carro até aqui! — falei.

      — Acredite, eu sei. — Ela suspirou, fazendo um dram inha. — Sete horas e

      m eia se o trânsito estiver ruim . Então… você vai m e convidar para entrar ou

      não? — Eu podia dizer pela form a com o as m ãos dela apertavam a alça da bolsa

      que ela estava nervosa por estar de volta.

      — Ah, claro
    ! — respondi, abrindo espaço. — Entre, desculpa. Mas, olha só,

      papai não está aqui.

      — Ah, eu sei. — Mam ãe estava correndo os olhos pela sala de estar de um a

      form a que m e fez sentir ansiosa por ela. Encarou a poltrona e o sofá que

      costum avam ser dela, com o se estivesse se perguntando se tinha o direito de se

      sentar ali ou não. — Ele tem reunião do AA às sextas-feiras à noite. Ele m e

      contou.

      — Vocês andaram conversando? — Isso era novidade para m im . Até onde

      eu sabia, eles estavam evitando qualquer contato desde a últim a reaparição de

      m inha m ãe.

      — Nós nos falam os por telefone duas vezes. — Ela parou de olhar para a

      sala e voltou os olhos para m im , o que pareceu pesar em m eus om bros. —

      Bianca, m eu am or… — A voz dela soou suave e triste. Dolorosa de se ouvir. —

      Por que você não m e contou que ele voltou a beber?

      Mudei de posição, tentando escapar do olhar dela.

      — Eu não sei… — m urm urei. — Acho que apenas esperava que tudo fosse

      se resolver naturalm ente. Eu não queria preocupá-la nem nada assim .

      — Eu entendo, m as, Bianca, isso é um problem a m uito grave — disse ela.

      — Você agora entende isso, espero. Se acontecer de novo, não guarde para si

      m esm a. Você precisa m e contar. Está m e entendendo?

      Concordei com a cabeça.

      — Bom . — Ela suspirou, aparentando estar aliviada. — De qualquer form a,

      esse não é o m otivo pelo qual estou aqui.

      — Por que você está aqui?

      — Porque seu pai m e contou outra coisa… — provocou ela. — Algo sobre

      um garoto cham ado Toby Tucker.

      — Você dirigiu sete horas e m eia por que eu tenho um encontro?

      — Tenho outras razões para estar em Ham ilton — disse ela —, m as acredito

      que essa sej a a m ais im portante. Então é verdade? Meu bebê tem um nam orado?

      — Ahhh… é, tenho — falei, dando de om bros. — Acho que sim .

      — Bem , conte-m e m ais sobre ele. — Minha m ãe estava em polgada,

      finalm ente decidindo se sentar no sofá. — Com o ele é?

      — Ele é legal — respondi. — Com o está o vovô?

      Ela sem icerrou os olhos, parecendo suspeitar de m im .

      — Ele está bem . O que há de errado? Você está tom ando a pílula, né?

      — Meu Deus, m ãe, é claro! — gem i. — Isso não está em discussão.

      — Obrigada, Senhor. Sou m uito j ovem para ser avó.

      Nem brinque com isso, pensei, lem brando de Vikki.

      — Então, qual é o problem a? — pressionou m am ãe. — Vim para casa

      porque soube que você tinha um encontro, e eu queria ter um m om ento-especial-

      m am ãe-e-filhinha. Mas se você está com problem as, tam bém posso lhe dar

      sábios conselhos m aternos. Posso encarar m últiplas tarefas, entende? Assim o

      tem po da viagem não é desperdiçado.

      — Obrigada — resm unguei.

      — Meu am or, é tudo brincadeira. O que há de errado? Qual o problem a

      com o garoto?

      — Nenhum . Ele é absolutam ente perfeito. Inteligente, divertido, o cara certo

      para m im . O problem a é que tem outro m enino e… — balancei a cabeça — ele

      é um babaca. E eu sou um a idiota. Só preciso de um tem po para repensar as

      coisas. Isso é tudo.

      — Bem … — disse m inha m ãe enquanto se levantava. — Só se lem bre de

      fazer o que te faz feliz, certo? Não m inta para você m esm a porque acha que

      determ inada escolha é m ais segura ou fácil. As coisas realm ente não funcionam

      assim … Acho que eu j á disse isso a você.

      Sim , m am ãe j á tinha dito algo parecido.

      Eu estava correndo em círculos havia tanto tem po que não tinha m ais ideia

      do que realm ente queria.

      — Bem , e há outra coisa — continuou m inha m ãe. — Eu lhe trouxe um

      presentinho para o encontro. Espero que isso a console enquanto você faz sua

      escolha.

      Assisti, com um m isto de horror e curiosidade, ela puxar um a caixa rosa e

      am arela de sua bolsa de m ão. Qualquer obj eto que estivesse dentro de um a

      em balagem nessas cores não seria boa coisa.

      — O que é? — perguntei enquanto ela colocava a caixa em m inha m ão

      aberta.

      — Abra e descubra, sua bobinha.

      Suspirando, peguei a caixa horrível em m inhas m ãos e puxei a fita que

      fechava a tam pa. Dentro havia um a pequena corrente de m etal claro com um

      pingente no form ato da letra B. Muito parecido com esses que as garotas m ais

      novinhas usam com o se fossem esquecer seu nom e ou algum a coisa assim .

      Mam ãe esticou o braço e tirou a corrente da caixa.

      — Pensei em você quando a vi — disse ela.

      — Obrigada, m ãe.

      Ela colocou sua bolsa de lado e levantou, postando-se atrás de m im . Passou

      m eu cabelo para o lado e prendeu a corrente em volta do m eu pescoço.

      — Vai soar um pouco brega, então tente não revirar os olhos para o que vou

      dizer, certo? Mas talvez essa correntinha possa aj udá-la a se lem brar de quem

      você realm ente é no m eio dessa tem pestade de dúvidas. — Ela colocou m eu

      cabelo de volta em seu devido lugar. — Perfeito — disse. — Você está linda, m eu

      am or.

      — Muito obrigada — falei, dessa vez com sinceridade. Ver m inha m ãe de

      novo fez com que m e desse conta de quanto eu realm ente a am ava e sentia sua

      falta.

      Nesse m om ento, a cam painha tocou e eu soube que era Toby. Ao m e

      aproxim ar da porta, senti m inha m ãe logo atrás de m im , observando tudo.

      Ah, que ótim o.

      — Olá — disse ele. — Uau. Você está linda.

      — É claro que ela está — disse m inha m ãe. — Você esperava algo

      diferente?

      — Mãe! — falei, virando-m e para olhar feio para ela.

      Ela deu de om bros.

      — Olá, Toby — disse ela, acenando. — Sou Gina, a m ãe de Bianca. Tudo

      bem , eu sei que você vai dizer que pareço a irm ã dela. Né?

      Rangi os dentes. Toby riu.

      — Divirtam -se — continuou m inha m ãe, m e beij ando no rosto. — Vou

      aproveitar e guardar algum as de m inhas coisas que ainda estão aqui. Am anhã

      vou dar um a palestra em um asilo em Oak Hill Sunday, por isso vou passar o fim

      de sem ana em um hotel. Vam os alm oçar j untas am anhã, pra que você m e conte

      todos os detalhes da noite.

      Ela m e em purrou para fora da porta e a fechou antes que eu pudesse

      dem onstrar o quanto aquilo tinha m e irritado. Agora estava sozinha com Toby na

      varanda.

      — Sua m ãe é engraçada — disse ele.

      — Ela é louca! — resm unguei.

      — Que papo era aquele? Ela disse que estava indo para um asilo?

      — Ah, m inha m ãe escreveu um livro de autoaj uda. — Dei um a olhada

      rápida na direção da casa e vi a som bra da m inha m ãe passando pela j anela em

      direção ao quarto em que ela costum ava dorm ir, preparada para em pacotar os

      últim os pertences que deixara para trás. Eu não tinha percebido a ironia até

      aquele m om ento. Nos últim os dois m eses, vinha lutando pela m inha própria

      autoestim a enquanto m inha m ãe ensinava a estranhos com o podiam fortalecer a

      deles. Talvez se eu tivesse conversado com ela, não teria dem orado
    tanto tem po

      para entender algum as coisas. — Ela fala com pessoas por todo o país,

      ensinando-as a se aceitarem com o são.

      — Parece um trabalho divertido — disse Toby.

      — Talvez.

      Ele sorriu e colocou um braço em volta da m inha cintura, levando-m e em

      direção à calçada.

      Suspirei e delicadam ente deslizei para fora de seus braços enquanto entrava

      no carro.

      capítulo 27

      Casey e Jessica estavam esperando no banco de trás do Taurus. As duas sorriram

      m aliciosam ente no instante em que m e abaixei para sentar no banco da frente.

      — Alguém escolheu um a roupa sexy hoj e — provocou Casey. — Eu te dei

      essa blusa há nove m eses. Esta é a prim eira vez que você usa?

      — Ahhh… é, é sim .

      — Bem , fica ótim a em você — disse ela. — E pelo visto eu sou a Duff dessa

      noite. Muito obrigada, B.

      Ela piscou para m im , e eu não pude evitar dar um enorm e sorriso. Casey

      recentem ente vinha se referindo a ela m esm a com o Duff em nossas conversas.

      No com eço, achei estranho. Quero dizer, a palavra era um insulto. Era algo

      horrível. Mas, após o m om ento de revelação que tive no banheiro com Vikki,

      passei a apreciar o que Casey estava fazendo. A palavra pertencia a nós duas

      agora, e enquanto a m antivéssem os sob controle poderíam os dosar seu efeito

      negativo.

      — É um trabalho bem difícil — provoquei. — Mas, ei! Alguém precisa

      fazê-lo. Eu posso ser a Duff do próxim o fim de sem ana.

      Ela riu.

      — Você por acaso está usando um sutiã com enchim ento? — perguntou

      Jessica, aparentem ente alheia à nossa conversa. — Seus peitos parecem m aiores.

      Houve um longo período de silêncio, e m e dei conta de que estaria m ais

      segura se tivesse ficado com a m inha m ãe.

      Casey explodiu em um a gargalhada enquanto eu escondia o rosto em

      m inhas m ãos, m ortificada. Toby nem piscou. Graças a Deus. Se ele tivesse

      falado algum a coisa, eu com eteria um suicídio dentro do carro. Bateria m inha

      cabeça contra a j anela até que m eu cérebro virasse um a panqueca. Em vez de

      dar um a espiadela disfarçada para m eus peitos, para ver se Jessica estava certa,

      Toby agiu com o se nada tivesse sido dito. Enfiou a chave na ignição e saiu

      dirigindo.

      Nota para mim mesma, pensei. Matar Jessica sem deixar testemunhas.

     


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